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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pipoca de chocolate

- Matheus, me dá mais uma?

- Ah, não, Renata! Vocês duas tão comendo toda a minha pipoca!

E rimos juntas do menino irritado. Eram daquelas pipocas doces prontas da Yoki, que vinham num saquinho como se fossem salgadinho. Acho que isso nem existe mais, o que é uma pena, porque eram muito boas. A do Matheus era de chocolate (a melhor), e ele não queria dividi-la com o resto dos colegas que brincavam com ele debaixo da árvore no Parque Ibirapuera, na excursão da escola.

Ele continuou comendo, ainda franzindo o cenho. O chocolate coloria as pequenas rachaduras que ele sempre tinha na boca. A língua dele também era meio rachada, coisa fácil de notar, porque toda vez que ia chutar forte a bola, ele dobrava e mordia a língua. Na queimada também: eu ficava hipnotizada olhando aquele rolinho rosa claro sendo mordido quando, de repente, recebia uma bolada na perna. “Senta, Marcela, pegou na sua perna que eu vi!”

Um dia, cheguei chorando na escola porque minha mãe havia me massacrado no carro, não sei por quê. Ele veio tentar entender minha tristeza e, de repente, estávamos os dois, de 10 ou 11 anos de idade, conversando sobre as nossas mães. “Quando faço algo certo ou legal, ‘não é mais que minha obrigação’. Mas se saio da linha um tiquinho, nossa, eu sou a pior pessoa do mundo!”, desabafou, para o meu espanto. Ele sabia exatamente como eu me sentia. “Ééééé!”, falei um pouco alto demais, apontando pra ele e arregalando os olhos. Incrível.

E eu ainda estava com vontade da pipoca.

- Matheus, você vai me matar se eu pedir mais uma? É a última, juro!

- Pode pegar – disse, oferecendo tranquilamente o pacote.

- Ei, por que ela pode e eu não? – protestou Renata, enquanto eu sorria com satisfação e colocava uma pipoca de chocolate na boca – É PORQUE VOCÊ GOSTA DELA?

Arregalei os olhos e segurei a respiração. Ele ia acabar comigo. Não acredito que ela perguntou isso! Ai meu deus, ai meu deus!

- E se eu gostar? Qual é o problema? – desafiou.

Engasguei.

- Nenhum, nenhum...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Homem-fortaleza

Eu tinha me esquecido. Não sabia bem por quê. Sentia falta daquele abraço com a certeza de que me seria um respiro. E, ainda que o tenha sido, foi uma surpresa. Eu tinha me esquecido completamente de como era.

Quando ele me abraça, é uma torre. Pequenininha, disparo escadaria acima, correndo, correndo, percorrendo os degraus circulares na imensidão azul-escura. De repente, quase no topo, ele me encontra nas escadas. Agachamos de repente, não há tempo a perder. E cochichamos, ofegantes, nossos planos. Bem baixinho para não ecoar.

Depois, com mais calma, subimos os degraus restantes até o topo, onde contemplamos debaixo do céu pontilhado um mar de trigo e de silêncio. A brisa preenche meus pulmões e leva o cherinho de noite a cada célula do meu corpo.

E aí ele me solta. É um homem-fortaleza que tudo pode, mas nem tudo faz, porque nem se deu conta de que pode tudo. Então, me abraça.

O relógio quebrado

da cozinha faz toc toc toc. Toc toc. Toc. Tococococo descompassado.
Ele estáprostestando. o fim
dos tempos...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sem-vergonha

“E como foi o seu dia?” era como ele se protegia do silêncio. Este mal ameaçava aparecer e já era preenchido com um sorriso largo e pueril. “Do que você tá rindo?”, perguntava ela toda vez, sem entender. “Sou bobo”, respondeu agora, com voz grossa. E, de repente, eram crianças dando risadinhas envergonhadas.

Estavam as roupas descaradamente jogadas no chão. A coberta, não ousaram nem sequer puxar com os dedos do pé. Restou na morena o moletom velho de gola e mangas cortadas. Numa das pernas, pela metade, a meia-calça cinza. Nas bochechas, o rosado lascivo. Ele vestia apenas pele lisa e rija, que afundava em cada linha de divisão muscular. E o sorriso.

Enquanto conversavam, de pernas entrelaçadas, ela mexia nos cachinhos quase loiros do menino quase homem deitado ao seu lado na cama de solteiro. Os olhos não desgrudavam uns dos outros, mesmo que quisessem descer e tocar os corpos suados.

O sol já havia raiado há tempos e invadia o quarto pela fresta da janela pouco aberta. A claridade inegável não permitia esconderijos. “Mas, de verdade, como você tá?”, perfurou-a com os olhos verdes. “Ah”. Engoliu seco, molhou os olhos, engoliu o choro. O sábado deveria terminar em gozo, não em lágrimas. E assim sucedeu para os dois.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Gatinhos



Atrasada para o trabalho, parei para tirar fotos. Ê beleza. Mas são tão pequeninhos...

Perguntas

Sentei na poltrona em frente à lareira com meu chá quente nas mãos. Cruzei as pernas, pés com pantufas. Assoprei, dei uma olhadinha pra ele. Coração acelerado. Em breve, vai responder todas as minhas perguntas. E eu vou saber.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tesão

a pedra
cai
e
traz
os
órgãos
para
baixo.
e efervesce em bolhinhas de cócegas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Vazamento

Com a face esquerda descansando sobre a cama, sentia de perto o cheiro de seu lençol. De alguma forma, o ombro direito fazia companhia às bochechas rosadas e aos lábios entreabertos do rosto quase entregue. Sem qualquer pretensão, tornava-a mais mulher, como naqueles movimentos femininos de aproximar o ombro da face.

O ventre lentamente se descolava do colchão por ordem dos quadris que teimavam em subir. E as coxas se afastavam cada vez mais, porque era como o prazer queria, descarado e sincero. Entregar-se aos desejos desinibidos era, em si, prazeroso. Jogava consigo mesma: ora cedia, ora privava com malícia, para depois passar dos limites. E ela sabia disso. E saber que sabia era ainda mais excitante. Reconhecia-se animal e ardente, isso também fazia parte do jogo.

A imaginação e o atrito úmido intensificavam as pulsadas delirantes, que subiam pelo corpo para explodir como fogos de artifício em cada extremidade, em cada ponta de cada dedo. Era o poder de sentir os dois ao mesmo tempo: os dedos molhados percorrendo pequenos montes de carne macia e os arrepios no âmago de cada toque.

O momento da entrega era o melhor. Sabia que iria chegar e, por isso, brincava mais um pouco de quase se perder. Até ser surpreendida pela grande certeza do êxtase, que cobria o mundo com um lençol branco e deixava a vida, por ora, mais simples e bela.

terça-feira, 23 de março de 2010

Lata

esfrega esfrega esfrega
as lágrimas de cerveja
das paredes,
que hoje não tem colo
do papai.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poema que sem querer querendo apareceu na minha frente

troquei o velho coração de pedra
por um novo,
de borracha.
Devolve cada pancada que leva,
mas, com as intempéries do tempo,

também racha.
Kleber Bordinhão


[tudo a ver, né? muito fofo.]

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Batatinhas

beijinho no pescoço. cheiroso.
sorrisinhos envergonhados no carro.

Quer rachar uma batata?
Claro!
Que estranho.
É.
Mas é bom.
É.
Engraçado, né?
É.
Quem diria?
É.
Ai, o freio de mão está no meio.
É...

mordidinhas no pescoço. cheirosa.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mágoas

sorrateiramente
corroem

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sexta Feira Caliente

Mew, preciso desabafar...TÁ MUITO QUENTE!!!

Acabei de chegar na faculdade, tem vários siriris voando e se algum ficar preso no meu cabelo, vou fazer a loca!!!

Eu quero um banho! Eu mereço um banho!

Não entendo esse negócio que as pessoas tem com calor e praia, é nojento essa combinação. Você está lá, na praia, puta sol, suando horrores e a areia fica gruando no seu suor, aí você vai pro mar para se refrescar e a água é salgada, então tudo fica grudando ainda mais. Fora o cabelo né. Não, sem comentários para o cabelo.

Na verdade, alguns comentários para o cabelo. Ele fica armado com o vento, pior ainda se você ousar molhar, mais a areia que fica grudada nele. Toda vez que eu vou pra praia eu fico mil anos no banho quando volto e ainda fico a semana inteira achando areia.

Tomar no cu quem acha que feriado/férias combina com praia.


Enfim, vou pro Rio no feriado e o Leblon que me aguarde.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tempestade numa xícara de café

Não aguento esperar. Quero que me leve para um Café agora e me estupre psicologicamente. Que abra com força as pernas da minha mente e penetre tão fundo que faça meu pescoço arquear para trás, até eu ver as cores de uma nova aquarela.

Quero que me conheça tão profundamente, que traga à superfície os tesouros dos quais não sabia a existência. E juntos, de volta ao navio, avaliaríamos as riquezas um do outro, enquanto rumamos à aurora do horizonte da xícara de café.

Argh

Não consigo me concentrar na minha leitura. Trinta minutos depois, já estou vomitando palavras num caderninho patético. Vou postar sem o devido cuidado, como sempre, sem o devido trabalho. São apenas vômitos. Peço desculpas aos leitores.

domingo, 16 de agosto de 2009

De madrugada

Liguei-lhe da privada
onde vomitei pensamentos
bêbados.

Azul da cor do mar

O dedo pressionou-lhe
o âmago
e o prazer a acordou dos beijos
macios.
Surpresa.

Missão Impossível

Fulminou-me com o olhar e nem sabia. Nem sabia que era tudo o que sempre quis e que, ao mesmo tempo, sua existência me doía. Doía o ácido me queimando as entranhas, me negando aquele sonho. Sonho e pesadelo, porque um homem daqueles carrega consigo a dor e o prazer juntos. Juntos, definharia em seus braços, não suportaria aquele absurdo que não parei de desejar a noite toda.

I do

A loja de roupas formais masculinas ainda está em liquidação. Que saudade do maridinho que vi crescer, com quem fui comprar vestimentas de homem feito.

Que saudade de ser a esposinha opinando sobre as camisas, que o acompanha na difícil decisão de ser homem, ainda que ele já o fosse desde sempre, ainda que já tivesse escolhido faz tempo.

Que saudade da gravata que não lacei em seu pescoço, daquele gesto típico da mulher sábia que cuida do seu par sem ele saber. Daquele contato entre os olhos, naquele momento, que diz: “Sou tua e és meu”.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A terceira

Você não ia descansar?, perguntou-me rouca a voz debilitada e imunodeficiente da minha consciência. Por que tudo tem que ser uma escolha, uma renúncia?, gritou outra, resoluta.

E, então, peguei o copo plástico de Dreher com limão que aquela mão bonita e masculina me oferecia. Mas que mãos, meu deus!, pensaram ousadas as vozes. São 23h30, alfinetou humildemente a primeira, você vai perder o metrô. Posso dormir aqui, respondeu a outra, ríspida. E, como se apenas para argumentar, produziu em minha mente a cena tão desejada: sentados no chão de tacos de madeira, com as bocas entrelaçadas, a barba e o bigode a arranhar-me a pele.

Deixe-o, não vale a pena, sussurrou manhosa a voz que queria descanso. Ah, mas que mãos, que olhos, que bocabarbabigodeebunda, implorou a outra. Eu sei, respondeu triste a primeira, mas não há garantias. Não há garantias, que merda!, protestou a segunda, que merda!

E, sem aviso ou precedentes, surgiu uma terceira voz, serena e sábia: Haverá outras oportunidades. E rumei correndo ladeira abaixo, depois ladeira acima, em direção ao metrô que demoraria a chegar e deixaria espaço para dúvidas, arrependimentos e teorias mirabolantes.